Entrevista com Gauss Cordeiro

quarta-feira, 17 de abril de 20130 comentários


Exclusivo


O senhor é formado em Engenharia Civil e Matemática. O interesse e os estudos pela área da Estatística surgiram como?

Gauss Cordeiro - Eu cursei Engenharia Civil na UFPE e o Bacharelado e Licenciatura em Matemática na Universidade Católica de Pernambuco em paralelo. Terminei meu curso de Matemática em 1973 e o de Engenharia em 1974. 
Sempre tive interesse pela Matemática Aplicada e nos dois cursos eu não tive contacto com Estatística, mas apenas com Probabilidade, que me encantou de imediato. Fiz alguns cursos em paralelo no Centro de Ensino de Ciências do Nordeste (CECINE) e entre eles, aqueles que mais me interessaram foi de Processos Estocásticos e Programação Linear, ambos em 1972. Depois desses cursos desisti de ser engenheiro, pois achava que seria no Brasil apenas um “capataz” de alto nível. O que me ajudou na decisão é que eu era um estagiário de engenharia numa construtora que estava construindo um prédio de 21 andares. Fui o apontador do prédio na construção até a 15ª laje e desisti, pois não usava a matemática que tanto me fascinava. O nome do prédio é Apolo XXI e está localizado no Bairro de Santo Amaro, em Recife. Só descobri a Estatística no Mestrado em Pesquisa Operacional da COPPE, em 1975, onde tive excelentes professores em Estatística e Processos Estocásticos com doutorado formados no exterior. 

(Imagem: Edifício Apollo XXI / Google)



Qual área ou aplicação da Estatística o senhor mais gosta? E qual acha a mais promissora?

Gauss Cordeiro - Eu fui o precursor da área de modelos lineares generalizados no País, tópico  que aprendi durante o desenvolvimento de minha tese de doutorado no Imperial College of Science and Technology, entre 1979 e 1982,  com forte ênfase em teoria assintótica. Orientei várias dissertações de mestrado e algumas de doutorado. Sempre fui bastante motivado pela área de modelos de regressão. A ideia da tradicional Escola de Modelos de Regressão foi  uma iniciativa conjunta com o Prof. Clóvis Perez. Acredito que essa escola ajudou a desenvolver a área no Brasil. Persisto trabalhando em teoria assintótica mas não tenho hoje o mesmo interesse nos modelos lineares generalizados como há 30 anos. Atualmente, a área de pesquisa que estou mais envolvido se traduz na construção de geradores de novas distribuições de probabilidade contínuas.



Como foi receber o Prêmio ABE-2008 pelos seu serviços prestados à Estatística e grau de Comendador da Ordem do Mérito Científico, em 2010, digo, o que cada um significou pra você?

Gauss Cordeiro - O Prêmio ABE-2008 foi importante para mim, pois fui reconhecido pela comunidade como  uma pessoa que contribuiu para o desenvolvimento da área de Estatística do País. Na realidade, esse prêmio foi idealizado por mim e pela Profa. Lúcia Barroso durante a minha gestão como Presidente da ABE.  Antes de mim, Bussab, Morettin e Clóvis receberam esse prêmio. Acho que fui o quarto. Quanto ao segundo prêmio, não fiquei envaidecido como no primeiro. 



Sabe-se que existem muitos casos de desrespeito aos direitos autorais de artigos e publicações na área científica. Qual é a importância da ética na vida profissional de um estatístico?

Gauss Cordeiro - Certamente, há muitos casos. Fui prejudicado várias vezes quando trabalhos meus foram literalmente copiados e publicados em livros sem serem citados. 



Com experiência em bancas de Mestrados e Doutorados, quais dicas o senhor daria para a produção de uma boa tese?

Gauss Cordeiro - Costumo dizer que a natureza não dá nada de graça a ninguém. Para se fazer uma boa dissertação de mestrado ou tese de doutorado deve-se trabalhar com afinco. Eu estou com quase 61 anos e trabalho com a mesma intensidade quando tinha 22 anos. Não se pode fazer ciência sem muito trabalho. A exceção são as pessoas geniais que representam uma reduzida minoria. 



Quais são os principais desafios do Brasil na pesquisa científica? O que é preciso para o Brasil chegar a um nível ideal e qual é o papel dos professores e alunos nisso?

Gauss Cordeiro - Entendo que no CNPq deveria existir mais bolsistas de produtividade de pesquisa. Temos apenas 15000 e esse número deveria ser pelo menos 50000 para motivar mais os professores doutores das universidades públicas a fazer pesquisa com intensidade. Além do mais os valores dessas bolsas estão defasados como acontece com as bolsas de mestrado e doutorado. Os valores delas deveriam ser multiplicados por um fator próximo de dois. E o custo para alcançar esse objetivo é muito baixo. 






O programa Ciências sem Fronteiras permite aos alunos brasileiros estudar no exterior e também busca atrais pesquisadores estrangeiros ao país. O senhor recomendaria a um aluno fazer intercâmbio através desse programa?

Gauss Cordeiro - Eu não gosto da gestão desse programa, pois os alunos não são acompanhados com rigor sendo que a metade deles estão indo para Portugal, que fica atrás do Brasil em termos de desenvolvimento científico. A ideia é boa mas a integral do programa é negativa.  



O texto da lei nº 12772, sancionada pela Presidente Dilma Roussef em 31/12/2012, trata do plano de carreiras e cargos de Magistério Federal e diz o seguinte:
Art. 8º
O ingresso na Carreira de Magistério Superior ocorrerá sempre no primeiro nível da Classe de Professor Auxiliar, mediante aprovação em concurso público de provas e títulos.
§ 1º No concurso público de que trata o caput, será exigido
o diploma de curso superior em nível de graduação.
Ou seja, o único requisito para o ingresso na Carreira de Magistério é o título de Graduação. Na sua opinião, essa medida é válida? Quais são as consequências para o futuro do ensino no Brasil? 

Gauss Cordeiro - Nas universidades federais surgiu uma famigerada lei, a Lei 12.772/2012, promulgada no apagar das luzes de 2012, que possibilita contratar professores sem uma titulação maior: mestrado e doutorado, exigido-se apenas o diploma de curso superior em nível de graduação. Esse fato representa um grande retrocesso na carreira dos docentes das federais. 

Para nosso desgosto, em qualquer bom ranking internacional de avaliação de qualidade não aparece nenhuma universidade federal entre as 400 melhores do mundo. Não parece estranho esse fato, pois o Brasil está entre as dez maiores economias do planeta? Existe um gigantismo que assola as nossas universidades federais, e muitos professores só fazem ministrar suas aulas, pois se dedicam a outras atividades que lhes oferecem maior retorno financeiro. Muitos  daqueles outros que se dedicam não têm qualquer interesse na pesquisa científica, o que reflete o desempenho pífio de qualidade das nossas federais.  Os sindicatos são formados, em boa parte, por pessoas que não têm o mínimo compromisso com a pesquisa de qualidade e, obviamente, seus interesses são norteados pelo corporativismo exacerbado, o que reflete na nossa baixa produtividade científica. 

Certamente, ainda há áreas com carência de doutores ou mesmo mestres. Nesses casos, um concurso para graduados é inevitável. Mas, em áreas mais maduras do conhecimento, há doutores. Remover dos departamentos a liberdade de escolher o perfil de seus candidatos é um retrocesso.  Infelizmente, ao longo dos últimos anos, umas séries de eventos se combinam para desmantelar qualquer ambiente acadêmico que pretenda esboçar excelência. Nominalmente, temos: excesso de burocracia que engessa as universidades; introdução de legislações, pareceres e recomendações de procuradores que corroem o mérito e as tradições universitárias; indefensa dos valores acadêmicos baseado em mérito; desmotivação dos professores mais destacados; infra-estrutura extremamente precária; nivelamento por baixo; imposição de quotas baseadas em pseudo-ciência para alunos iméritos; vestibular com fraquíssimo crivo de seleção; excessiva preocupações com evasão ou reprovação, mas pouca preocupação em melhorar o ensino; priorização em criar novos cursos e diplomar alunos em grande quantidade sem necessariamente zelo pela qualidade. Esta lista não é exaustiva. 



Em sua avaliação, como anda o surgimento de novos cursos e departamentos fora do eixo Rio-São Paulo?

Gauss Cordeiro - Fora do eixo Rio-São Paulo, temos excelentes cursos de Pós-Graduação em Estatística na UFPE e UFMG com pesquisadores de renome internacional e bons cursos na UFRN e na UnB. Ademais, outros programas em matemática e computação oferecem opções em probabilidade e Estatística, como na UFSC, UFRGS, UFPB e UFCG. Entendo ainda que na UFCE e na UFBA existe um bom elenco de doutores com potencial para formar programas de mestrado em Estatística no curto prazo. Claro que há cursos de Estatística Aplicada com ênfase em experimentação agrícola e biometria em alguns outros locais. 



Qual é a importância de estar em contato direto com a comunidade estatística através de mídias como o grupo Estatística Brasil no Facebook, a lista da ABE e, agora, o site estatisti.CO?

Gauss Cordeiro - Acredito, firmemente, que o grupo Estatística Brasil e a lista da ABE fazem um bom trabalho de divulgação em prol da Estatística do Brasil. O site de vocês é muito bem construído e estará produzindo resultados positivos no curto prazo.


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