Entrevista com Doris Fontes, presidente do CONRE-3

quarta-feira, 20 de fevereiro de 20130 comentários

Doris Fontes, presidente do CONRE-3

Doris Satie Maruyama Fontes é formada em Estatística pela USP. É a atual Presidente do CONRE-3 e sócia-proprietário da Tableau Consultoria e Gerenciamento.

O Conselho Regional de Estatística da 3ª Região (CONRE-3), com sede no município de São Paulo, abrange os estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.



Confira abaixo a nossa entrevista:






Os CONREs funcionam com total autonomia? E como funciona a ligação entre eles?

DORIS FONTES: Os CONREs funcionam com certa autonomia administrativa, mas estão sob orientação permanente do CONFE (Conselho Federal de Estatística). Cada CONRE sabe de suas obrigações e funções que foram previamente organizadas/regimentadas pelo CONFE. Dentre as atividades regionais, é possível organizá-las com relativa autonomia, sempre dentro das atribuições legais dos conselhos profissionais.



Se um universitário decidir seguir a carreira pública e trabalhar em um órgão como o CONRE, qual caminho ele deve seguir?

DORIS FONTES: Todos os cargos administrativos do CONRE são voluntários, assim, não tem como seguir uma carreira dentro do nosso conselho. O que pode haver são concursos para o cargo de fiscal do exercício da profissão. Em outros departamentos ou órgãos públicos, a convocação em geral ocorre por meio de edital e concurso, portanto, o estatístico deve ficar sempre atento às chamadas públicas.



Quais são as perspectivas para a criação de novos postos de ensino superior em Estatística na região do CONRE-3?

DORIS FONTES: Alguns departamentos de Estatística no interior de São Paulo estudam a possibilidade de se oferecer novos cursos de Bacharelado em Estatística. Isso significa a abertura imediata de várias posições para docentes de disciplinas de estatística. Além disso, escolas privadas como a PUC-SP já estão oferecendo Bacharelado em Estatística. Se você considerar apenas o ótimo tamanho do mercado de trabalho, diria que as perspectivas para novos cursos são excelentes, no entanto, precisamos reconhecer que as dificuldades para se montar um bom corpo docente são enormes pela falta de professores realmente qualificados e especializados em estatística.



“Precisamos reconhecer que as dificuldades para se montar um bom corpo docente são enormes pela falta de professores realmente qualificados e especializados em estatística.”



O projeto de Lei da Câmara nº138 de 2010 regulamenta as profissões de Pesquisador e Técnico de Mercado, Opinião e Mídia. A iniciativa gerou polêmica na Comunidade Estatística, por quê?

DORIS FONTES: É simples: este Projeto de Lei prevê a criação de "Pesquisador de Mercado, Opinião e Mídia" que tenha tão somente concluído um "curso de nível superior ou de pós-graduação cujo conteúdo curricular abranja métodos e técnicas de pesquisa científica e estatística aplicada à pesquisa, bem como teorias sociais e psicológicas." Segundo o PLC-138/2010, esse profissional seria quem "planeja ou realiza pesquisa, de forma autônoma ou a serviço de instituto de pesquisa, desenvolvendo, entre outras, as seguintes atividades, compatíveis com sua formação profissional: 

I- atividade processual e coordenada de investigação dos problemas sociais, culturais, mercadológicos, econômicos e políticos, mediante método de coleta de informações, ampliando o conhecimento e subsidiando a busca de soluções; 
II- gerenciamento e execução do processo de obtenção dos dados, análise dos resultados, comunicação das conclusões e recomendações de soluções; 
III- transformação das informações obtidas mediante pesquisas e dados secundários em inteligência mercadológica e pensamento estratégico, com foco na solução do problema de pesquisa, dentro dos padrões éticos e de qualidade científica." 

Ora, parece-me que boa parte da descrição das responsabilidade deste profissional foi escrita pensando num estatístico, somente evitando-se a todo custo mencionar a palavra "estatística". A preocupação da comunidade estatística deveu-se, principalmente, ao perigo de se legalizar um profissional que, no fundo, ofereceria produtos estatísticos sem a formação teórica adequada ameaçando a tão almejada "qualidade científica". A profissão de estatístico foi criada pela lei federal nº 4.739 em 1965, e regulamentada pelo Decreto Nº 62.497 em 1968. Não vemos necessidade na criação de uma figura de "Pesquisador de Mercado, Opinião e Mídia" que poderá ser ocupada por um estatístico com treinamento ou especialização na área.  

Fora do Brasil, pesquisas de qualidade contam sempre com profissionais com profundo conhecimento teórico em estatística. Além disso, é comum encontrarmos profissionais como doutores em sociologia, psicologia ou economia com forte bagagem matemática e estatística, garantindo aos trabalhos/serviços desenvolvidos um outro patamar de qualidade científica.
A impressão que fica depois de ler muitas justificativas para a criação dessa lei para profissionais da área de pesquisa de mercado, sobretudo de nível técnico, é que o problema maior é trabalhista, a falta de reconhecimento profissional, falta de um plano de carreira ou segurança contratual, e não necessariamente a "garantia da qualidade" do produto final.



“Ora, parece-me que boa parte da descrição das responsabilidade deste profissional foi escrita pensando num estatístico, somente evitando-se a todo custo mencionar a palavra ‘estatística’.”



Em relação às metrópoles brasileiras, qual apresenta o maior polo de ensino e aprendizagem para o estatístico?

DORIS: Acredito que a cidade de São Paulo seja o maior polo empregador de estatísticos e, consequentemente, onde é possível encontrar bons cursos complementares, como MBAs. O Estado de São Paulo concentra excelentes universidades, como a USP (dois campi, um em São Paulo e outro em São Carlos), Unicamp, UNESP (Presidente Prudente) e UFSCar, O Rio de Janeiro também é muito importante tanto no sentido formador como empregador de estatísticos. No ensino, o Rio de Janeiro e Niterói oferecem centros de aprendizado (UFRJ, ENCE, UFF e UERJ) e de complementação de estudos, por exemplo, na área financeira (IMPA). Tem também importantes centros de pesquisas econométricas no Rio: PUC e FGV. Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro somam quatro departamentos com ótimos programas de mestrado e doutorado stricto sensu em estatística: USP (Butantã), Unicamp, UFSCar e UFRJ. Outro estado muito importante é Minas Gerais que já conta com quatro cursos de estatística: UFMG, UFJF, UFOP, UFU. Lista completa de escolas que ensinam estatística em nível de bacharelado e/ou pós correlacionado: clique aqui



Qual é a importância da divulgação e troca dos saberes da Estatística na internet, como em blogs, fóruns e grupos de redes sociais?

DORIS: Esses meios de comunicação são importantes para qualquer profissional, porém, para os estatísticos, por terem uma gama extremamente ampla de áreas de aplicação, o compartilhamento de experiências, de dicas, de notícias científicas e de eventos da área torna fundamental. A comunidade profissional ainda é pequena, mas, mesmo assim, trocar ideias é uma atividade complexa. No entanto há os congressos, encontros, workshop que ocorrem no decorrer do ano, que amenizam a situação, como o SINAPE (Simpósio Nacional de Probabilidade e Estatística), ENEST (Encontro Nacional dos Estudantes de Estatística), EBEB ( Encontro Brasileiro de Estatística Bayesiana), CLATSE (Congresso Latino-americano da Sociedade de Estatística), entre outros. Hoje em dia, diria que redes sociais, blogs e fóruns são parte integrante da vida profissional e acadêmica dos estatísticos, formados ou ainda estudantes.



“A comunidade profissional ainda é pequena, mas, mesmo assim, trocar ideias é uma atividade complexa.”



Já foi dito que a Estatística seria a profissão do futuro. Esse futuro já é presente? Ou ainda está distante?

DORIS: O futuro já chegou, mas ainda há muito espaço pela frente não só no Brasil como no mundo todo. Veja o esforço da ASA (American Statistical Association) para divulgar e fortalecer a profissão de estatístico no mundo todo. A crítica que se faz há muito tempo é a falta de visibilidade da nossa profissão. Todos falam de Big Data e da importância de profissionais que possam extrair informação desses mega banco de dados. Por que o estatístico não é mencionado sempre? Há uma falha terrível de marketing institucional e profissional também.



Se um profissional quiser se especializar em um software estatístico ele deve fazer a escolha da linguagem ainda na universidade?

DORIS: Não acredito nisso. O mundo de softwares é muito dinâmico. Veja historicamente como vem ocorrendo. Os primeiros formandos aprenderam praticamente linguagem de máquina; evoluiu para um Cobol, Fortran, Algol, Pascal, C++, Java... Agora há muitos estatísticos usando R, Phyton, Julia e por aí vai. Saber programar bem numa linguagem facilita a aprendizagem de qualquer outra.



Qual tem sido a opção de continuação dos estudos mais procurada pelos estatísticos? Em qual área?

DORIS: Complementar estudos para estatísticos é uma tarefa complicada, eu diria. Mestrado de qualidade e especializado em estatística só mesmo stricto sensu, ou seja, bem puxado para quem já está no mercado de trabalho. Alguns têm buscado a academia partindo para programas mais convencionais de mestrado, seguido de doutorado stricto sensu. Para quem está no mercado, parece-me que MBA tem sido comum, embora existam os que buscam mestrado/doutorado fora da área, como Administração, Marketing ou Economia.
Uma área importante que acho que mereceria mais envolvimento de estatístico é a área médica. Há uma demanda reprimida enorme, mas parece não haver interesse mútuo. Então, é preciso que duas coisas aconteçam: quebrar o gelo, fazendo com que pesquisadores da área médica se aproxime mais e converse com os estatísticos e que, ao reconhecerem a importância deste profissional, passem a remunerar melhor. Acho natural um recém-formado pensar em ganhar bem, mas, por outro lado, acho uma pena uma área tão importante como a médica seguir sem a contribuição importante dos estatísticos.



“Uma área importante que acho que mereceria mais envolvimento de estatístico é a área médica. Há uma demanda reprimida enorme, mas parece não haver interesse mútuo.”



Sabe-se que falar Inglês é fundamental  na carreira do estatístico. Exceto isso, mais o que é importante?

DORIS: Sim, é fundamental que o estatístico saiba pelo menos um inglês intermediário. Melhor ainda se tiver boa desenvoltura na língua inglesa conseguindo não somente ler/escrever, mas também falar bem, fazer apresentações em reuniões ou em público. Saber espanhol também tem sido um plus na carreira. Lógico que outras línguas também valem pontos. Além da língua, acho que é muito importante para o estatístico buscar ampliar sua cultura geral, ter mais interesse por assuntos variados, passar a enxergar o seu mundo profissional como sendo parte integrante e indissociável do que está lá fora. A criatividade numa solução de um problema só pode surgir nas mentes de pessoas que conseguem enxergar muito além de um conjunto de dados. Portanto, para absorver mais conhecimentos, é importante que o estatístico saiba trabalhar bem em equipes e tenha sempre a humildade para aprender sobre o assunto no qual está envolvido. 
Há, também, uma área que merece mais atenção do estatístico -- e que demanda bastante criatividade: Visualização de Dados. Americanos e Europeus são loucos por visualização de dados, mas aqui vejo ainda muita mediocridade sendo publicada pelos jornais.



“A criatividade numa solução de um problema só pode surgir nas mentes de pessoas que conseguem enxergar muito além de um conjunto de dados.”



Como anda a publicação de livros relacionados à Estatística,  por brasileiros? E a de artigos científicos?

DORIS: Não estou muito por dentro do mundo editorial, mas a impressão que tenho é que a produção brasileira é ainda muito pequena, não somente de livros originais como de traduções. Em relação a artigos científicos, há grupos bastante produtivos e importantes no Brasil, cujos pesquisadores têm conseguido publicar em boas revistas. Acredito que seja importante publicar em boas revistas internacionais para que a comunidade acadêmica da estatística brasileira ganhe mais visibilidade. Isso proporcionará também maior intercâmbio com bons pesquisadores internacionais, promovendo um avanço na pesquisa nacional. Não acredito que é possível crescer numa ilha isolada.



Este é o Ano Internacional da Estatística e diversas atividades serão realizadas ao redor do mundo. O que você espera para 2013?

DORIS: Sinceramente, espero que no Brasil possamos testemunhar um avanço na promoção da nossa profissão. Ganhar mais visibilidade, ganhar o reconhecimento de que somos um profissional importante. Se somente nos Estados Unidos já mencionam números assustadores, como uma demanda quase dois milhões de profissionais para trabalhar com Big Data até 2015, dos quais uma boa parte deve ser de estatístico, como o Brasil pode sonhar em participar desse enorme esforço mundial para fornecer os tão sonhados estatísticos se formamos cerca de 450-500 por ano? A conta simplesmente não bate por aqui.
Gostaria, sinceramente, que houvesse um esforço conjunto das várias entidades que lidam com estatística (ABE, SBEst, CONREs, CONFE e Sindicatos) para que essa promoção da carreira aconteça e seja uma semente que germinará vigorosamente.
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